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Uma noite memorável

Texto publicado no blog Fashion Insights,
da fotógrafa e professora Márcia Molina

Fotos: RAR

RARSábado, 22 de novembro de 2008. O relógio marca 19h e eu saio da minha casa em direção ao terraço de um dos prédios mais altos do centro de Porto Alegre – localizado ao lado da Catedral Metropolitana. A vista desse ponto é simplesmente impressionante: para todos os lados onde se olha, a capital gaúcha mostra toda sua beleza e encanto. Contudo, muito além de ser brindado com essa fantástica paisagem, mal sabia eu que estava prestes a ser presenteado com uma das noites mais inesquecíveis da minha vida.

Através da minha parceria com a Câmera Viajante, assim como pela amizade construída com a Karla Nyland e o Rogério do Amaral, tive o privilégio de ser convidado para uma janta memorável com alguns dos heróis da fotografia de nosso Estado e país. Como muito bem observou Gerson Turelly, fotógrafo e professor da escola, somados os anos de profissão de cada um, chegaríamos a quase dois séculos de história da fotografia. Dos mais experientes, ainda do tempo do analógico, aos mais novos, imersos no universo digital, todos dividindo a mesma paixão: a escrita com a luz.

Lá estavam reunidos personagens como Ricardo Chaves – o Kadão -, editor de fotografia do jornal Zero Hora, Antonio Sobral, fotógrafo do jornal Correio do Povo e coordenador do Curso de Fotografia da ULBRA, assim como os fotógrafos Leopoldo Plentz, Luiz Abreu, Carlos Carvalho, Fernanda Chemale, Márcia Molina, Edgar Neumann, Paulo Backes, Gerson Tessler, Willy Costa Filho e Manoel Petry. Mas o grande astro da noite – aquele que todos estavam ansiosos para conhecer ou reencontrar – foi o carioca Walter Firmo.

RARCom meio século de carreira, construída principalmente através do exercício do fotojornalismo, Walter Firmo foi convidado pela Câmera Viajante para apresentar pela primeira vez no Rio Grande do Sul o seu “Universo da Cor”. Aproveitando a visita deste que é considerado por muitos o ‘mestre da fotografia brasileira’, nada como um churrasco gaúcho para servir de pretexto a essa noite memorável. E lá estava eu, ainda iniciante no mundo da fotografia, de olhos e ouvidos bem atentos, tentando aproveitar ao máximo essa oportunidade de estar diante de alguns de meus ídolos.

Se “uma imagem vale mais que mil palavras”, existem centenas de palavras/ histórias em cada tomada fotográfica que ficam desconhecidas das pessoas externas a esse registro. Como define Philippe Dubois, um dos autores que mais avançou na compreensão de formas de significar da fotografia, “o referente é representado pela foto como uma realidade empírica, mas ‘branca’: sua significação permanece enigmática para nós, a menos que façamos parte ativa da situação de enunciação de onde provém a imagem”.

Nesse sentido, esse encontro de fotógrafos foi uma oportunidade única para desvendar algumas dessas histórias fotográficas. Curiosidades, lembranças, recordações… tudo isso regado a um bom vinho e muitas risadas. Sentado no centro da mesa, não por acaso Walter Firmo acabou sendo também o centro das atenções. Carismático, divertido, envolvente e repleto de histórias para contar, o fotógrafo consegue encantar a todos que estão a sua volta. Após a janta, ainda presenteou a todos com uma exibição – em primeira mão – de algumas imagens de sua viagem para Londres.

Domingo, 23 de novembro de 2008. O relógio marca 01h da manhã e, mesmo que triste com o encerramento do encontro, volto para casa seguro de que essa noite ficará viva na minha memórias por muitos anos. No elevador, ao avaliar o encontro com seus amigos, Walter Firmo ainda apresentou uma das principais lições da noite: “Só aqui em Porto Alegre mesmo para juntar toda essa turma. Em outros lugares, os fotógrafos são orgulhosos demais para se reunir”. E eu complemento: “um pouquinho só de humildade já seria o suficiente”. E ele: “é verdade, só um pouquinho”.


Fotos: Walter Firmo

1 comment Novembro 28, 2008

Porto Alegre – fragmentos da capital

 

 

1 comment Novembro 30, 2007

Coletiva com Nelson Pereira dos Santos

nelson.jpgFoto: Edison Vara / PressPhoto

 

Confira trechos da conversa do cineasta Nelson Pereira dos Santos com a imprensa. Homenageado pelo Festival de Cinema deste ano com uma comenda especial, que lhe será entregue hoje à noite, o cineasta chega a Gramado cercado de muito carisma.

 

Reconhecimento

Homenageado pela segunda vez pelo Festival de Cinema – o diretor já recebeu, no ano de 1998, o Troféu Eduardo Abelin -, Nelson Pereira dos Santos recebe, em 2006, mais uma homenagem, a Comenda das Hortênsias. “Além de curtir o Festival, e toda essa agitação, estou sendo homenageado mais uma vez, e isso é muito bom”, destaca o diretor. E esse é um ano especial na vida do diretor: em julho, Nelson Pereira dos Santos foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, tornando-se, assim, a primeira personalidade do cinema a ingressar na Casa. “A minha eleição é um pretexto para uma grande homenagem ao cinema brasileiro”, explica. Para ele, isso é um reconhecimento ao cinema nacional como um todo, enquanto manifestação cultural, certamente tão importante quanto a literatura.

Documentário X Ficção

Com relação aos formatos ficção e documentário utilizados no cinema, o cineasta contextualiza dizendo que o cinema brasileiro tem uma relação muito forte e antiga com o documentário. De acordo com ele, as produções “andaram um pouco apagadas durante alguns anos”. Mas ele garante que, de um tempo para cá, houve um ressurgimento, e há, ainda, o apoio da televisão na exibição de trabalhos do gênero. “Um motivo desse retorno ao documentário é em função do formato digital. Ele facilita muito a captação de imagem e de som”, afirma. Autor de documentários como Raízes do Brasil (2004) e Glauber o Filme – Labirinto do Brasil (2004), o cineasta atenta para o fato desse gênero ter um charme especial, em função de ficar totalmente ligado à realidade. “Esse é um dos motivos dele ter bom públicos, a exemplo de Vinícius (2005), completa o diretor.

Contribuições

Ao longo desses 51 anos de dedicação ao cinema, é indiscutível a contribuição de Santos no enriquecimento da cultura nacional. Com relação a isso, o cineasta afirma “sentir-se lisonjeado, e mais responsável”, e ao mesmo tempo reconhecer esta como uma relação mútua, na medida em que ele também aprende muitas coisas com outros diretores. “A única coisa que eu acho é que eu estou mais perto da janelinha”, debocha. E completa dizendo: “Eu aprendo muito mais com os diretores brasileiros do que com pessoas de outros países. Eles, que estão realmente inseridos nesse espaço, é que podem me oferecer muito mais, um olhar mais preciso sobre a realidade que eu estou lidando.” E finaliza dizendo que isso não se restringe ao cinema. Pelo contrário, de acordo com ele, isso vale para todas as artes: pintura, literatura, artes plásticas, entre outras: “Vale mais o que meu vizinho está fazendo do que um grande mestre do cinema”.

Vidas Secas

Um dos grandes sucessos do diretor paulista é a adaptação para o cinema da obra de Graciliano Ramos, Vidas Secas (1963). O que poucas pessoas sabem é que esse filme guarda uma histótia, no mínimo, inusitada: ele participou de uma das edições do tradicional Festival de Cannes, na França, tendo sido exibido logo no início do evento. Logo após sua projeção, uma condessa italiana militante dos direitos dos animais ficou chocada com a encenação de morte da cachorra Baleia – tamanho o realismo da cena. Por mais que a equipe tentasse convencê-la de que o animal não havia sido sacrificado, ela não acreditava. O fato tomou tamanha repercussão que, através do apoio de uma empresa aérea, foi possível levar a “atriz” intérprete da personagem Baleia – de primeira classe – para o Festival, acalmando a condessa. Após alguns anos desde esse cômico episódio, a diretora Luelane Corrêa lançou um curta, em Gramado, intitulado Como Se Morre no Cinema (2003), contando o fato em uma espécie de making of do clássico Vidas Secas.

Cinema Novo

Quanto ao rótulo de “Pai do Cinema Novo”, o cineasta é objetivo: “Eu estou há um tempo querendo desfazer esse rótulo”. Isso porque, garante ele, quando a imprensa brasileira começou a nomear a nossa produção cinematográfica de Cinema Novo, em 1964, ele já estava no seu quinto trabalho. Os argumentos são efusivos:
“Hoje meus filmes não representam o Cinema Novo. A minha passagem é diferente. A minha formação é lá atrás”.

[Com relação ao Glauber Rocha:]

“Ele não só fazia filmes polêmicos, como também escrevia textos polêmicos”.
“As pessos consideram o Cinema Novo como um tipo de movimentos homogêneo, onde todos teriam combinado os mesmo conceitos estéticos, filosóficos e políticos. Mas não é assim. Dentro do Cinema Novo, havia pessoas de todas as tendências, com valores – sejam culturais ou filosóficos – diferentes.” […] “Cada um tinha o seu Cinema Novo.”
“O que acontece é que existia uma confluência de pensamentos, pois todos retratavam aspectos relacionados à liberdade de expressão e conhecimento, como tambénm a denúncia contra a repressão.”

Cinema Contemporâneo

Santos afirma observar um certo pluralismo na produção cinematográfica contemporânea. Para ele, “Não existe mais aquele direcionamento que tinha nos anos 60, durante o regime da ditadura.” Pelo contrário, observa, há uma grande liberdade de expressão: “Não há uma ditadura estética.” Nelson Pereira dos Santos declara, ainda, a importância da descentralização do cinema, que está tomando corpo. Para ele, é muito importante o cinema se espalhar pelo país. “Esses curtas que a gente está vendo aqui em Gramado são reveladores, mostram o que essa geração nova está procurando”, finaliza.

(Entrevista publicada no site Cinema.com.br, durante a cobertura especial do 34º Festival de Cinema de Gramado e 14º Gramado Cine Vídeo).

Add comment Agosto 17, 2006

Luciana Druzina, coordenadora do 1º Granimado

lu_druzina_1.jpgFoto: Objetiva Press

 

Confira trechos da conversa com a produtora Luciana Druzina, Coordenadora do 1º Granimado.

 

Cinema.com.br: Fale um pouco de sua carreira…

Luciana Druzina: Eu comecei a trabalhar com cinema ainda na faculdade. Eu fazia publicidade, e já tinha interesse por cinema, então resolvi fazer um curso de extensão. Ainda não tinha o Curso de Audiovisual da Unisinos quando eu comecei a trabalhar com isso, mas sempre procurei fazer seminários e outros cursos na área. A partir desse curso, que eu fiz na Unisinos, comecei a trabalhar na área como produtora, tirei meu registro profissional, etc. Animação já era uma paixão.

[…]

E eu sempre pensava em trazer o Animamundi pra cá. Eu até tentei entrar em contato com eles, mas era muito caro trazer a mostra. Então a gente resolveu fazer a nossa Mostra de Animação, no ano passado, com o apoio do Gramado Cine Vídeo, e foi uma apenas de exibição, não era competitiva. Foi muito interessante porque a gente conseguiu o apoio dos animadores do Brasil inteiro, e em um mês a gente conseguiu produzir tudo. Recebemos 250 filmes, foi muito bacana. Eram filmes de 2002 a 2005, animações de 2 a 5 minutos. Esse ano também foi um grande sucesso, mas daí nós limitamos: somente curtas-metragens de até 15 minutos, de 2005 a 2006, e recebemos 103 filmes, de todas as partes do Brasil.

E eu estou agora trabalhando como produtora, e só trabalho com animação. Estou na diretoria da ABCA [Associação Brasileira de Cinema de Animação]; coordenando o Dia Internacional da Animação, que acontece no dia 28 de outubro e eu vou representando o Brasil; e trabalhando no Granimado.

Cinema.com.br: Esse ano então a mostra passou a ser competitiva?

Luciana Druzina: É, ano passado era Mostra Brasileira de Animação em Vídeo. Agora, que tomou forma, é o Granimado, um festival de animadores para animadores. Ele foi idealizado para animadores, cada ítem foi discutido, sugestões foram enviadas por e-mail. Desde o momento em que eu estava formulando o projeto, cada pedacinho dele foi montado com muito carinho e com sugestões de quem trabalha com animação.

Cinema.com.br: E tu poderias falar um pouco sobre as mostras deste ano?

Luciana Druzina: Nós temos a Mostrinha de Animação, que aconteceu ontem [quarta-feira] e que foi muito legal porque é com as crianças. Essa Mostra está acontecendo também nas escolas carentes, a gente está tendo uma média, todos os dias, de 300 pessoas, e a idéia é essa mesma, de fomentar a cultura, criar novas platéias.

Tivemos a nossa paralela, ontem [quarta-feira], a Mostra Panorama, que está mostrando o que foi feito de animação brasileira nos últimos dois anos. E está bem bacana, também, tem bastante coisa boa. E temos a Mostra Competitiva Tchê Anima! [com curtas gaúchos], que tem 8 curtas-metragens. A gente recebeu 14 filmes do Rio Grande do Sul, e rendeu bastante. A Competitiva, de maneira geral, rendeu, porque pessoas de todo Brasil enviaram filmes. Na Mostra Gaúcha, a gente percebe que a temática dos filmes é gaúcha, tem sotaque, tem uma preservação da cultura, e isso foi muito bacana de ver. E a Competitiva foi bem legal para conhecer outros animadores, de outras partes do país, que não são muito conhecidos mas que estão aí, fazendo o seu trabalho. […] Na Mostra Nacional, a gente recebeu 103 filmes de todo Brasil, e são muito excelentes, todos os animadores elogiaram muito a seleção, que foi super criteriosa e difícil, porque os filmes eram muito bons, então a gente fez uma pré-seleção com muito carinho. E o pessoal tem falado que dá orgulho de participar, mesmo não entrando na competição, porque se percebe que é uma mostra de nível.

Cinema.com.br: E quem faz parte do júri?

Luciana Druzina: O Júri da Pré-Seleção foi composto pela Camila Gonzatto, que é uma produtora de animação conhecida aqui no Rio Grande do Sul; colocamos o Zé Schneider, que é Coordenador da ABCA aqui no Rio Grande do Sul também; o José Maia, que é animador conhecidíssimo que faz 2D; o Eduardo Campos, que trabalha muito com 3D… a Camila trabalha também com stop-motion. Ou seja, a gente chamou gente que trabalha com animação, e procuramos pegar gente que trabalha um pouquinho com cada técnica, pra gente poder contemplar todos os estilos e fazer uma mostra bem ampla. Já no Júri de Seleção, de agora, tem o Otto Guerra, que dispensa apresentações; o Frederico Pinto, que ganhou, ano passado, o Festival de Gramado com o curta Os Olhos do Pianista; e três pessoas que foram indicadas pela ABCA, que o Maurício Squarizzi, um grande animador; a Sílvia Prado, professora de animação; e Tadao Miachi, que é do Paraná. É um júri que está super técnico, e isso é bem legal, pelo menos está sendo considerado muito positivo.

Cinema.com.br: E o Granimado tem também eventos paralelos, não é mesmo?

Luciana Druzina: Sim, tem diversos encontros, e eu queria destacar muito o que vai ocorrer na sexta-feira, às 13h30, no Centro de Cultura de Gramado. É aberto ao público, e é um encontro com todos os animadores que estão em Gramado, que são cerca de 50. Esse encontro é super importante pro país, porque a gente tá com o presidente da ABCA aqui em Gramado, e eles vão falar do futuro da animação no Brasil, tendências, leis de incentivo, acordos de cooperação, etc.

Cinema.com.br: Com relação à premiação…

Luciana Druzina: Claro, estamos muito felizes porque já no primeiro ano a gente conseguiu bastante prêmio. Temos um prêmio de incentivo do Ministério da Cultura, de R$5.000,00, que vai para o melhor filme. Tem o Prêmio da Kodak pra melhor direção, que são três latas de película em 35mm, tanto na Mostra Gaúcha, quanto na Mostra Nacional. Temos prêmio também do CTAV-SAV, o próprio José Araripe vem fazer a entrega, que são 4 latas de película, edição de som e a primeira cópia do próximo filme do diretor. E a gente tá dando uma mesa de luz, daquelas que os animadores usam pra fazer 2D. Ganhamos também caixas de vinho para todos os realizadores que estão participando da Mostra.

Cinema.com.br: Quais são os planos para o futuro do Granimado?

Luciana Druzina: Em princípio, a gente mantém o Granimado junto com o Cine Vídeo, até porque parte da equipe da produção é a mesma. E também porque aqui acontecem muitas coisas, e a gente quer uma atenção dos realizadores, de quem vem pra cá. Mas de qualquer forma, a gente vai analisar outros projetos, e se continuaremos nas mesmas datas do Festival ou não.

[…]

Quanto a outros encontros, eu queria dizer que em Porto Alegre, o Santander já nos pediu para montar uma Mostra de Animação, com os filmes do Granimado, mas ainda estamos nos organizando, pra de repente fazer uma itinerância, levar para todo Brasil. E quem quiser ampliar nosso trabalho, então, é só entrar em contato. Quem tem interesse em animação, também, pode se manter informado através do site da ABCA, que tem bastante informações pra quem trabalha ou quer trabalhar com isso.

(Entrevista publicada no site Cinema.com.br, durante a cobertura especial do 34º Festival de Cinema de Gramado e 14º Gramado Cine Vídeo).

Add comment Agosto 17, 2006

Antônio Fagundes recebe Troféu Oscarito

antonio_fagundes.jpgFoto: Edison Vara / PressPhoto

 

O ator Antônio Fagundes foi agraciado (foto), nesta terça-feira, com o Troféu Oscarito, pelo conjunto de sua obra. No total, são mais de 30 filmes lançados, realizados ao longo de quase 40 anos de profissão – que não se resume ao cinema. Pelo contrário, as andanças pela sétima arte aconteceram “nas horas vagas” de uma vida inteira dedicada ao teatro e à televisão.

Por esses e outros motivos, o Festival de Gramado prestou uma homenagem, na noite de ontem, ao ator Antônio Fagundes, concedendo-lhe o Troféu Oscarito. Na tarde que antecedeu à premiação, Fagundes conversou com a imprensa e falou um pouco mais sobre sua atividade nos diferentes formatos em que atua (televisão, cinema, teatro), refletindo sobre a atual situação do cinema brasileiro e problematizando a política nacional, de um modo geral.

Teatro

Antônio Fagundes iniciou a coletiva afirmando que a sua principal atividade sempre foi o teatro. “O teatro é a pátria do autor, é lá onde ele se exercita”, destacou o ator. Para Fagundes, dentre as possibilidades de gêneros que nos quais os atores podem trabalhar, a comédia é o mais difícil de se fazer. Nela, é preciso ter um domínio do personagem que talvez o drama não exija tanto: “Eu admiro muito quem consegue fazer comédia bem.”

Premiação

Ao ser perguntado sobre a homenagem, Fagundes garantiu sentir-se muito honrado. “Eu já participei algumas vezes da mostra competitiva do evento, mas nunca ganhei um Kikito”, comentou. E mesmo já tendo ganho mais de trinta prêmios de teatro e cinema ao longo de sua carreira, o homenageado da noite destacou a importância do Troféu Oscarito e seu significado em 2006: “Esse ano, o Oscarito estaria completando 100 anos: isso reverte num significado muito especial.”

O ator destacou ainda o fato de os festivais ganharem em credibilidade por seu tempo de permanência em vigor: “Eu tenho prêmios de festivais que não passaram da sua primeira edição. Para mim, esse prêmio perdeu o seu valor.” [Quanto ao Kikito, ele afirma que] gostaria de receber uma homenagem como essa por ano.”

Cinema

“Num país com 190 milhões de habitantes, são vendidos apenas 90 milhões de ingressos por ano.” A partir desse dado, o entrevistado passou um panorama da situação do cinema brasileiro. Para ele, mesmo que esses números representem um avanço, por mostrar que o setor conseguiu ultrapassar as barreiras do eixo Rio-São Paulo e conquistar novos públicos – “hoje tem cineastas e profissionais de outros estados produzindo e mostrando seu talento” -, ainda assim são irrisórios. “Esse ano nós já fizemos 150 mil espectadores com a peça As mulheres da minha vida. Apenas 4 filmes nacionais conseguiram essa marca, dos 30 produzidos [em 2006]. Isso mostra que tem alguma de errado com o cinema nacional.”

Entretanto, para ele, isso não é um problema exclusivamente nosso. Está acontecendo no mundo inteiro, pelos mais diversos motivos, tais como o advento de novas tecnologias (TV a cabo, Internet, dentre outras), que acabam por competir com o cinema, o baixo orçamento destinado para divulgação, etc. “Nos Estados Unidos, a quantia investida em divulgação é quase equivalente ao custo do filme. No Brasil não é assim. Com Dois Filhos de Francisco [de Breno Silveira, lançado em 2005] foi assim, e deu certo. É preciso repetir essa equação.”

Encerrando o assunto, Fagundes falou ainda sobre o círculo vicioso no qual estamos inseridos: “Quando nós não pensamos no público para o qual a gente está fazendo cinema, parecemos um bando de filósofos querendo dar auto-filosofia para um público que não aprendeu a ler. Nós ainda não fizemos o bê-a-bá do cinema, isto é, tentar se relacionar com o maior número possível de pessoas. O cinema americano, japônes, europeu, etc., já conseguiram fazer isso. A conquista de mercado foi o que abriu as suas indústrias cinematográficas.”

Política

Finalizando a coletiva, e com relação às políticas do audiovisual, o ator foi bem objetivo: “Nós não temos política agrícola, política cultural … enfim, nós não temos política!”, e afirma, ainda, que se sente arrasado, assim como toda a população: “Estamos sendo roubados diariamente por deputados que iremos reeleger em breve. Mas a democracia é isso mesmo, escolher entre o ruim e o pior. E eu vou ficar com o pior, o Lula.”

(Entrevista publicada no site Cinema.com.br, durante a cobertura especial do 34º Festival de Cinema de Gramado e 14º Gramado Cine Vídeo).

Add comment Agosto 16, 2006

Coletiva de imprensa com MV Bill

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Foto: Divulgação

 

Confira trechos da conversa de MV Bill com a imprensa, dentro da programação do 14º Gramado Cine Vídeo. Na ocasião, o cantor falou de seu documentário, Falcão – Meninos do Tráfico, de seus projetos sociais e de política.

 

Sobre o seqüestro da equipe da Rede Globo pelo PCC…

MV Bill: “Eu acho que qualquer tipo de situação como essa deve ser repudiada. Não acho que essa atitude tenha sido a coisa mais bela do mundo, isso eu volto a reafirmar. Mas primeiro, foi cumprido o que foi exigido, que foi soltarem os caras depois que a fita foi exibida. Então acho que isso foi positivo. Não a questão do seqüestro, isso tem que ser repudiado, mas acho positivo ter havido um acordo entre as duas partes, achei que a atitude da Rede Globo em exibir e valorizar a fita foi fundamental, mas acho que as pessoas precisam saber, ou pelo menos procurar saber, os porquês desses conflitos. Não dá pra achar que os presidiários, não só em São Paulo, mas no Brasil inteiro, são tratados numa boa, não dá pra disfarçar. É preciso resolver essa questão, que é atual, e acho que esse episódio pode nos ensinar muita coisa, principalmente que o ser humano merece ser tratado de forma mais digna.”

Sobre o trabalho desenvolvido no Bairro Restinga, em Porto Alegre (RS)…

MV Bill: “A minha ligação com a Restinga é de longa data, já faz um bom tempo que eu vou lá. E quando eu vou, não é simplesmente um rolê, pra encontrar amigo, pelo contrário, é uma forma de estar incentivando a produção local, de mostrar pra eles que é importante a organização e a articulação deles, o fazer alguma coisa para que mude a situação de marginalidade. Então tem esse tipo de caminho a seguir, e são poucos jovens que continuam pelo caminho do crime, porque eles já enxergam que há outros trajetos, que podem ser bons, ou podem ser simplesmente diferentes.”

MV Bill x Rede Globo…

MV Bill: “Nosso documentário já foi exibido em diversas emissoras. A TV Senado, por exemplo, já exibiu; e acho que a TV Cultura também já passou. Quanto a limite, isso aí a gente não tem, não existe esse tipo de contrato ou de restrição [de passar o filme em um ou outro canal]. Em relação à Rede Globo, a primeira coisa que a gente percebeu com esse documentário é que não ganharíamos dinheiro com ele, então a gente começou a desejar que ele fosse assistido pelo maior número de pessoas possível. E o Fantástico é o programa de maior audiência na televisão brasileira, então fomos nós que procuramos a emissora, quando nós descobrimos que, na realidade, as críticas que nós recebemos, foi de um setor isolado da emissora. Até no livro Falcão a gente comenta do incidente com um jornalista da emissora. E pra nós ficou um sentimento de vitória, porque O Soldado do Morro, o mesmo material que recebeu críticas, não tem diferença nenhuma do Falcão. É o mesmo trabalho, ambos têm a mesma natureza, e um incentivou o outro, aliás. Então fazer isso é mostrar que a gente tava certo desde o primeiro momento, e que eles acabaram tendo que fazer uma mudança pra se adaptar ao nosso trabalho.”

Quanto à politização e ao movimento estudantil…

MV Bill: “Acho que a política deveria estar em todos os setores.Nesses lugares onde eu fui pra fazer o Falcão , pra retratar esses quadros de miséria, a política não chega, só chega através de campanha, como tá chegando agora, através de campanha política. Aí você vê o retrato de um cara bonitão, bem tratado, bem nutrido, e uma pessoa que muitas vezes nem almoçou, fraca, com fome, que tá lá segurando a foto do bonitão no sinal. Então eu acho que fazer com que só isso chegue nesses lugares [marginalizados], é uma forma de agredir. Tem é que levar a politização para os jovens, pra esses lugares, pra essas pessoas. Acho que o jovem tem que estar envolvido, sim, não existe esse negócio de voto branco, voto nulo, de “vou votar em qualquer um”. Tem que se informar. É chato, não tem como negar, é chato, é ruim a gente estar por dentro das propostas que os caras estão trazendo. Se hoje a gente tem um governo – e eu não sou defensor do governo do Lula ou da campanha dele, não – onde aparece toda essa corrupção, a gente também tem que olhar as opções que nós temos para sucessão, as idéias que estão sendo propostas. Temos que tomar muito cuidado com isso, pra que a gente não faça uma troca agora pra depois se arrepender. Então é necessário estar muito envolvido, até se o Lula for reeleito, pra também poder cobrar, ficar em cima dele cobrando mais clareza do governo, e mais pureza na punição dos corruptos. Acho que a gente só vai poder fazer isso se for participativo. Eu convoco a juventude, em todo lugar que eu vou, a participar das políticas partidárias e públicas do Brasil.”

Liberdade com responsabilidade…

MV Bill: “Em todos os lugares em que a gente chega com projeto, nem todo mundo vai querer ser ajudado. O sucesso do projeto não está em todo mundo participar, mas sim em focar em quem quer mudar de vida. Tem gente que simplesmente não vai querer ajuda, não vai querer se interessar pelos cursos. Mas eu acho que o desinteresse de uns não pode prejudicar o interesse daqueles que estão a fim de fazer. A gente tenta é levar um pouco de alento, um pouco de conhecimento, através das oficinas que a gente promove. E nenhum projeto tem retorno financeiro pra quem tá fazendo, mas é uma forma de passar adiante esse conhecimento que nós temos, e através desse conhecimento é que a pessoa vai decidir o caminho que vai seguir. A gente pode instruir pra que a pessoa vá pro lado do bem, mas se ela não quiser, é uma opção dela.”

Sobre o incentivo ao trabalho social…

MV Bill: “Acho que não é uma coisa que tenha que ser imposta, tem que ser através do sentimento. Logo após a exibição do documentário [Falcão], muitas pessoas se mobilizaram. Pessoas de classes diferentes, pessoas que nada tinham no bolso, também outras pessoas endinheiradas, então cada um passou a tentar fazer alguma coisa, cada um à sua maneira. Quando eu vi isso, eu percebi que outras pessoas, assim como eu, também querem ver um Brasil diferente, e estão fazendo alguma coisa pra que não tenha mais conflito em cadeia, pra que não tenha mais jovens no crime. Mas essa é uma coisa que tem sentido. Eu fico triste quando parte da sociedade tá se mobilizando porque está assustada, quer fazer qualquer coisa pra manter esse povo longe da nossa porta. Isso é ruim. Enquanto tem um monte de gente que tem dinheiro mas quer ir lá, ver de perto, que não usam ações pra poder ganhar dinheiro. Assim como o Afro Reggae, como o Observatório de Favelas, e outros projetos em favelas do Brasil. Tem pessoas que fazem cursos para aprender como captar dinheiro em leis e depois soltam migalhas nas comunidades. Acho que esse trabalho tem que partir do coração. Então acho que quando ele surge nas favelas, tem tudo pra dar certo, porque o cara que tá fazendo é coadjuvante daquele que ele vai atender, então não vai passar de má vontade, vai fazer pra valer.”

Quanto à mobilização gerada pela exibição do documentário…

MV Bill: “A gente enxerga uma mobilização na sociedade, sim, porque tem uma porção de pessoas me perguntando sobre esse assunto. A sala de exibição cheia. Imagina, o filme foi exibido pela primeira vez vá lá quatro, cinco meses atrás, e ainda é um assunto que está em pauta. Acho que essa é a nossa função, trazer o assunto pra pauta. O filme causou comoção, e causou mobilização, também. Mas acho que a mobilização ainda está quém da que é necessária. E por parte do poder público, eu tenho visto pouca coisa. Tentar, a gente tenta, mas espero muito mais, e não cansei ainda. Continuo fazendo reunião, falando com parlamentares, discutindo com eles, porque se a gente faz daqui, cada um do seu jeito, imagina a expressão que a coisa não pode tomar se vier do poder público, quantas pessoas a mais eles não poderiam estar ajudando. Disso eu sinto falta: de um posicionamento maior por parte do governo.”

Sobre a inexperiência da equipe durante as gravações…

MV Bill: “Foi uma relação de aprendizado. Primeiro porque nós não somos documentaristas, nem somos jornalistas. Mas fizemos um trabalho “jornalístico” baseado em reportagens que nós já tínhamos visto. A prática foi nos demonstrando algumas coisas, e em cada entrevista a gente ia melhorando, ficava calado, ouvindo. Mas também não ouvia de forma apática, porque a partir de um momento, a gente começou a ver que o pessoal estava pedindo desculpas pras câmeras. Aí a gente interferiu, mas somente depois de uma liberdade de perguntar, questionar, que a gente foi adquirindo ao longo do tempo. Porque a gente procurou não receber as respostas passivamente. O rapper falou ainda de sua agenda, que prevê um percorrer de cidades e estados para divulgação do filme e atendimento às demandas geradas pela exibição do documentário, e também o lançamento em DVD do projeto. Agradeceu, também, à organização do Gramado Cine Vídeo, pelo convite e oportunidade, e afirmou grande expectativa quanto à possibilidade de cada vez mais favelas e produtoras independentes enviarem seus curtas e projetos para exibição em Gramado. “Mas eu vou torcer muito pra que os curtas não sejam de tragédia, tomara que eles tenham oportunidade de retratar coisas boas e projetos que rolam por aí”, finaliza.

(Entrevista publicada no site Cinema.com.br, durante a cobertura especial do 34º Festival de Cinema de Gramado e 14º Gramado Cine Vídeo).

Add comment Agosto 16, 2006

Mariângela Machado, diretora do Instituto Estadual de Cinema

iecine.gifImagem: Divulgação

 


Eu queria que tu falasses um pouco sobre a preocupação o Iecine em manter a realização da Mostra Competitiva de Cinema Super-8.

Na verdade, em relação ao ano passado, o número de trabalhos inscritos ficou na mesma média (em torno de 9 ou 10). A gente até tinha 10 ou 11 inscritos, mas dois tiveram problemas com o laboratório e não trouxeram. Mas é que o super-8 é uma coisa interessante, ele é muito presente ainda em certos lugares, como na Europa.

A publicidade também às vezes usa super-8 (é uma estética diferente), e por isso ele conserva aquela maneira tradicional de fazer cinema. Que é o cine montado de forma artesanal, então tem gente que ainda prefere. Só que eu não sei quanto tempo o Festival vai manter esse espaço, porque realmente o número de produções é menor a cada ano.

Mas esse número menor é em decorrência de poucas pessoas que se inscrevem ou por um limite de inscrições estipulada pelo Festival?

O que acontece é que, quando abrem as inscrições para a Mostra de Super-8, a gente procura fazer uma bela divulgação. São abertas as inscrições para todas as regiões do Brasil e a média de inscrições realmente não passa de 10 filmes. O que não é tão pouco. Por exemplo, curta-metragem gaúcho tem quase isso. Mas o que a gente está observando é que as pessoas fazem o filme para participar da mostra, então a gente meio que provoca essa produção.

Para encerrar, gostaria de saber o que tu achas a respeito de toda essa discussão em torno do Prêmio Iecine. O que acontece realmente, e qual a posição oficial do Instituto?

Esse governo tem toda a consciência da importância do Prêmio Iecine e do curta-metragem. O Premio existe há cerca de 18 anos – mesmo tempo que existe o Instituto –, e antigamente, antes da existência do Iecine, também havia recursos para fomento de curtas-metragens. O que aconteceu foi que, nessa virada de governo, nós estávamos no meio de um concurso que começou no governo anterior e cujas parcelas não foram pagas.

Então nós começamos assumindo essas dívidas, e como é um premio feito com dinheiro de orçamento, e a questão orçamentária do Estado está muito complexa, a gente acabou tendo muita dificuldade de pagar. Ainda tem filmes que estão concorrendo esse ano aqui no Festival e que não receberam a segunda parcela.

Com isso, a gente inscreveu o prêmio na Lei de Incentivo à Cultura, pois já que existe um recurso anual de R$ 28 milhões para a cultura, a gente está utilizando esse recurso para que o prêmio não páre. Sabemos que inscrever pela Lei de Incentivo é uma demanda que gera muita polêmica, já que a LIC é destinada para a comunidade cultural. Mas hoje, por questões orçamentárias e por termos projetos que não devem ser deixados de fora, nós já inscrevemos o 10° Premio Iecine de Curta-metragem na LIC e esperamos que esse ano saia.

Eu não posso prometer data ainda – nós estamos em fase de aprovação e depois, posteriormente, de captação –, mas a gente reconhece a importância do Prêmio. Inclusive teve um manifesto importante no Festival, da APTC, e de toda a classe, exigindo isso do governador. E ele já determinou à SEDAC que execute o Prêmio de qualquer forma. Então a gente vai fazer.

(Entrevista publicada no site Cinema.com.br, durante a cobertura especial do 33º Festival de Cinema de Gramado e 13º Gramado Cine Vídeo).

Add comment Agosto 20, 2005

Christian Schneider, vencedor da Mostra Competitiva de Cinema Super-8

super8.jpgFoto: Divulgação/Sedac-RS

 

Como aconteceu a tua relação com o cinema? Um breve currículo?

Começou em 1996, na Faculdade de Comunicação da PUC-RS, quando iniciou um movimento de cinema lá dentro, incentivado pela Flavia Seligman, pelo Gerbase, e pelo Fabiano de Souza, e aí começou a se fazer os curtas em super 8. Naquela época eu sabia nada, trabalhava com luz para teatro e o Leandro (que fazia fotografia) me chamou para fazer a luz. E aí começamos, e eu adorei a coisa, mas ninguém tinha uma noção prática de nada. Então a gente foi aprendendo e isso foi muito bacana. Depois disso, em 97, aconteceu uma grande polêmica em Gramado: os realizadores não tinham convite para receber a premiação em super-8. Eles davam o Prêmio e não tinha ninguém para receber. Como eu tinha quatro rolos de super-8 sonoro na época, fiz um documentário sobre isso. Para minha surpresa, eles falaram “tri” bem do super-8, que era “isso aí”, que “tinha que fazer mesmo”.

Então montamos aquele filme, que tecnicamente era uma porcaria, pois filmamos sem luz, mas que tinha um conteúdo fantástico. Com isso, nós fizemos um manifesto, todo mundo assinou e encaminhamos para o Goida (coordenador do Festival). Foi aí que eles largaram a organização do super-8 para nós. Aí deu aquele “boom”: de 3 filmes passou para 15, no outro ano para 33 e foi assim que eu comecei a fazer cinema.

Com relação ao Festival, quantos trabalhos seus já participaram do evento?

Começou em 1997, com esse trabalho chamado “Cinema” e depois eu fiz mais 9 filmes em super-8 que concorreram aqui.

E por que sempre nesse formato, o super-8?

Pelo seguinte, eu nunca na minha vida fiz um projeto e coloquei no Fumproarte ou Lei de Incentivo. Eu não tenho saco para inscrever, esperar, aprovar, captar… Escrevia e ficava com toda aquela adrenalina, com tesão para rodar. Por isso, eu nunca busquei fazer em outra bitola. Eu tinha as idéias, juntava o pessoal e o jeito de viabilizar era o super-8.

Não gosto de vídeo, acho que não é cinema e então a única alternativa de fazer cinema, para mim, é esse formato (super-8). Mas aí também tem uma coisa, e isso eu aprendi ao longo dos filmes: tu tem que fazer um filme em super-8, que seja para super-8. Não adianta querer fazer um “cinemão” bonito em super-8, aí fica ridículo. Porque esse formato é tosco mesmo, senão, vira piada mesmo.

Com o Festival de Gramado, e no próprio evento mesmo, acompanhamos muitas discussões sobre a situação do cinema de um modo geral. Eu queria que tu fizesse uma avaliação sobre isso.

Eu acredito que, diante desse “boom” que deu com nos longas-metragens, criou-se um fenômeno interessante: aconteceu um esvaziamento da produção de curta, ou seja, muita gente boa dos curtas, passou para os longas. Com isso, teve esse esvaziamento de mão-de-obra qualificada para fazer curtas. E aí, as empresas que apoiavam os curtas, passaram a apoiar os longas, por dar muito mais visibilidade. Resumindo, ficou mais difícil conseguir o apoio para o curta.

Somado a isso, teve um esvaziamento das nossas leis (todas( de incentivo). Então o pessoal não tem mais como fazer, é muito foda. Então, para mim, o Iecine é culpado, é muito culpado e eu até já cheguei a dizer que o Iecine está fazendo muito mal para o cinema gaúcho. Porque é um órgão que custa muito caro, tem muito funcionários e é totalmente inoperante. E digo mais. Eu não quero mais fazer super-8 por causa da situação que ele está. Eu adoro super-8, adoro a textura, adoro como suporte, mas vou ter que partir para outras bitolas.

E qual a tua idéia para o Festival do ano que vem? Já tem algum projeto em andamento?

Eu tenho um projeto que é em 16mm, mas eu ainda não tenho condições de conclui-lo. É aquele negócio: a gente consegue apoio para alimentar a equipe, para o figurino, uma passagem aérea, de repente, mas eu não consigo apoio para pagar a finalização de áudio que custa R$ 10 mil, por exemplo.

A gente necessitaria de um Fumproarte, de uma Lei de Incentivo, do prêmio Iecine, enfim, qualquer que seja o instrumento de fomento. E isso não tem, então fica muito difícil.

E, como eu já aprendi, como eu já fiz um 16mm que eu não consegui concluir com recursos próprios, não quero cometer o erro de novo. Juntar uma equipe, motivar, fazer o curta e não ter a certeza de que eu vou conseguir finalizar. Então eu prefiro não fazer do que correr esse risco. Porque, afinal de contas, as pessoas estão trabalhando e têm o direito de concluir o vídeo.

(Entrevista publicada no site Cinema.com.br, durante a cobertura especial do 33º Festival de Cinema de Gramado e 13º Gramado Cine Vídeo).

Add comment Agosto 20, 2005

Carlos Gerbase, diretor do longa brasileiro Sal de Prata

sp01215.jpgImagem: Divulgação

 

Pelo o que a gente está acompanhando falar a respeito do Sal de Prata, a idéia era fazer um filme sobre fazer cinema. É mais ou menos isso? Conte um pouco sobre essa história.

A idéia original do filme é contar uma história de um artista que morre e deixa pra trás alguma coisa, alguma obra não terminada, e que continuasse muito importante, mudando a vida das outras pessoas. Essa era a minha idéia inicial. Nem precisava ser um cineasta. Poderia ser um músico, um dramaturgo, um escritor. Eu comecei a escrever a história como se fosse um escritor, depois pensei: não, o mundo do cinema é um mundo até que eu conheço mais. Eu nunca tinha feito um filme com o cinema como ambiente. Então, vamos para o cinema! Daí a idéia passou a ser de um cineasta que morre e deixa para trás alguns roteiros, que são descobertos pela sua namorada – sua viúva -, que não entende nada de cinema.

No momento em que ele morre, ela fica totalmente sem saber o que fazer naquele luto. Então ela vai para o apartamento dele, mexe no computador e encontra esses roteiros; começa a ler, e enlouquece. Acha que tudo o que está escrito ali fala dela; fala deles. Ela confunde ficção com realidade, e aí a única forma de tentar compreender aqueles textos é procurar ajuda dos amigos dele.

Na verdade, a história principal é dela, que está saindo de uma experiência de vida e indo para uma outra, com pessoas completamente diferentes, com atividades que ela não conhecia. E isso vai provocar uma mudança muito grande na vida dela. Então, na verdade, o filme é sobre essa transformação, apesar de eu brincar bastante com a história da realização dos filmes. Por exemplo, quando dois caras vão fazer o mesmo filme – um é publicitário, de sucesso, com bastante grana; e o outro é um chinelo, e um deles faz em 35 mm e outro em DV, eu começo a brincar com as diferentes formas de se fazer cinema.

Mas eu não acho que Sal de Prata seja um filme metalingüístico, tipo Noite Americana ou Crepúsculo dos Deuses, que vão na coisa do cinema mesmo. Ele é um filme mais sobre o que esses roteiros, que agora estão virando filme, continuam provocando na vida dessa mulher. E no final do filme, quando ela termina o projeto, está completamente diferente.

E quanto ao roteiro, como foi escrevê-lo?

Em 2000, eu fiz o primeiro tratamento do roteiro. Ele foi evoluindo, passando por mais alguns tratamentos, fui dando para as pessoas lerem. Eu assino o roteiro sozinho, mas na Casa de Cinema, todo mundo lê; todos dão palpites. E teve uma coisa importante, que eu nunca tinha feito antes, que foi a oficina do Sundance Institut.

Eles fazem oficinas no mundo todo, creio que de 2 em 2 anos tem aqui no Brasil – ou de 3 em 3. Eu sei que em 2002 a gente inscreveu o roteiro numa dessas oficinas. Ele então foi selecionado e eu fui para o Rio de Janeiro. Fiquei uma semana em Nogueira, com cinco consultores (assim que eles chamam). Dois brasileiros, um chileno, uma mexicana e um americano. E foi super legal essa “consultoria” de roteiro. Foi aí que surgiu a idéia de fazer com que a Cátia (a namorada do Veronese), não entendesse nada de cinema. Isso foi legal, foi uma mudança interessante. No começo, ela era uma das cineastas, e com a oficina ela virou uma mulher que não tem nada a ver. Isso foi uma coisa legal que surgiu nesse momento.

Isso tem como objetivo aproximar o público?

Isso tem como objetivo melhorar o roteiro. Porque eles escolhem roteiros – são muitos roteiros inscritos – que eles acham que têm condições de serem desenvolvidos, condições de melhorar. E tu fica uma semana lá, ouvindo opiniões a respeito. São duas horas com o cara falando. Então eles se reúnem, discutem o roteiro entre eles, voltam para falar contigo e daí tu vai para tua cidade e escreve. Lá não é para escrever, é para ouvir. No meu caso, inclusive, eu estava no meio de uma confusão, um super trabalho. Esse negócio foi em agosto, e eu só fui pegar o roteiro em novembro – cheio de anotações.

Eles não têm essa coisa comercial, de deixar o filme comercial – não tem mesmo. Até pelo tipo de consultor que está lá. Não é esse o perfil – “adequar a Holywood” -. Até porque o Sundance trabalha muito com cinema independente. Então eu continuei trabalhando o texto. A última versão do roteiro – obviamente – a gente termina 2 semanas antes de filmar. E esses 4 anos (de 2000 a 2004) não é só o roteiro, é o próprio projeto também. Isso na Casa de Cinema é até o mais comum. Tem um tempo de captação de recursos, que geralmente é longo, tu te inscreve em concursos, ganha uma grana, depois consegue um apoio aqui, outro ali, busca patrocinadores e isso leva um tempo. Enquanto esse tempo tá correndo, tu fica melhorando o roteiro. Um vez tendo dinheiro, começa a filmar (risos…). O principal é o dinheiro. Quando odinheiro completa, teu roteiro tem que estar bom.

E as filmagens foram todas em Porto Alegre?

Sim, foram todas em Porto Alegre, duraram 6 semanas. Começaram no finzinho de 0julho (de 2004), durou todo agosto e a primeira semana de setembro. Ou seja, noFestival de Cinema de Gramado do ano passado eu me dei conta de que não vim nenhum dia. Normalmente, no Festival, eu dou uma passada, mesmo que não tenha filme. Mas ano passado não vim nenhum dia, não botei os pés aqui, porque nós estávamos filmando.

Falando em captação de recursos, patrocínios, o diretor do longa Carreiras apresentou, na primeira noite do evento, um trabalho com um orçamento muito baixo (R$ 35 mil), realizado em 8 dias de filmagens. Como você avalia isso?

Eu acho assim: tem que ter uma coerência do projeto como um todo. Eu acho super legal o que ele faz – um filme simples, que pode ser feito em 8 dias, gastar pouco e fazer digital. Por exemplo, o Sal de Prata seria absolutamente impossível fazer em oito dias. Mesmo que fosse vídeo, seria impossível fazer em menos do que, digamos, cinco semanas. Não tem como. Então o custo do Sal de Prata, inevitavelmente – pelo roteiro, pelo elenco que nós temos, com o cenário que construímos -, é muito maior. Não tem como adequar. Creio que, havendo uma coerência entre o teu roteiro e a maneira que tu está idealizando, é maravilhoso fazer um filme de baixíssimo orçamento como o do Domingos. E acho uma alternativa super legal.

Mas não acho que seja a única alternativa possível. O cinema brasileiro tem que ter filme de baixo orçamento; tem que ter filme médio, como é o Sal de Prata; e pode também ter – por quê não – filmes de orçamento grande. E esses últimos têm que ser, necessariamente, comerciais, no sentido de “eu quero atrais público”. Não tem sentido o governo brasileiro abrir mão dos seus impostos, colocar 10 ou 12 milhões de reais no filme para ser visto por 10 mil pessoas – não tem sentido.

O que acontece, e é o que eu acho legal do baixo orçamento, é que tu tens liberdade estética e artística, e pode fazer com filme – quase sem concessão – completamente do jeito que tu queres, e ficar muito feliz com isso. São caminhos absolutamente bons, válidos para o cinema brasileiro. Agora, nessa questão da tecnologia digital, cada um se vira como pode. No caso do Sal de Prata, ele é 35 mm e discute também isso.

Sobre isso, eu gostaria de saber por que o título do filme remete ao “sal de prata”, que é uma substância química utilizada nos filmes feitos em película; mas ele também tem cenas digitais. Como fica isso?

O Sal de Prata, enquanto tecnologia, está morrendo, não resta dúvida. Quanto ao tempo que vai levar para ele morrer, eu não sei. Mas ele vai morrer. De certo modo, ele está morrendo como o cineasta que, lá na história, também morre, mas ele continua. Os filmes que ele fez, o texto que ele deixou pra trás, enfim, o Sal de Prata vai continuar. Os filmes estão aí, é uma tradição vastíssima, porque o digital está dando ainda os seus primeiros passos.

Qual é o grande filme feito em digital até agora? O Dançando no Escuro, talvez seja o grande filme (nem acho tão bom assim). E um monte de baboseira de Holywood. Vamos ver o que o Sal de Prata, com certeza, vai nos trazer coisas muito boas, mas sem dúvidas, ele tende a ser mais barato e mais rápido do que a película. Então nós estamos num momento de transição, saindo de um mundo tecnológico e indo para outro. O filme discute isso.

Por que é natural. Como é mais fácil de fazer digital, mais pessoas fazem e aparece mais merda. Então o Sal de Prata dialoga com essa questão, essa transição. E, obviamente, o filme não é para dar opinião a respeito. Tem personagens que fazem DV porque não têm dinheiro, e outros fazem 35, porque têm dinheiro. Só que ambos páram de fazer por razões diferentes. Nenhum deles completa o filme. Aí vocês têm que assistir o filme para ver como ele se completa (risos…). Mas é isso, os bons filmes são feitos com os recursos que os cineastas têm nas mãos.

O cinema novo brasileiro foi todo feito com recursos muito baixos, com equipamentos muito simples (até com um tipo de filmagem quase amadora), e são grandes filmes. Agora tu tens também a Atlântida Vera Cruz, com estruturas industriais de fazer cinema, e com bons filmes também.

Quanto ao elenco, nós temos a participação da Maitê Proença, que já tinha trabalhado contigo no outro filme (Tolerância), não é mesmo? Por quê?

É, a Maitê faz assim … 15 segundos. É o seguinte: tem uma cena em que uma atriz está recebendo um prêmio num Festival de Cinema. E a idéia é que esse premio seja entregue por uma estrela do cinema brasileiro (que nem aqui em Gramado, quando chamam para entregar). Só que é a Camila Pitanga que está recebendo o prêmio, então eu tinha que chamar alguém que tivesse uma estatura artística, que fosse tão conhecida quanto a atriz. Aí eu liguei para a Maitê e disse: “é o seguinte, eu preciso de ti aqui. Tu vais interpretar a ti mesmo, entregando um prêmio, topas?” Ela estava fazendo novela e mesmo assim topou; pegou um avião sábado de noite, dormiu aqui, domingo de manhã filmou conosco (na reitoria ali), e domingo de tarde voltou pra SP.

E o resto do elenco?

Há dois ou três anos atrás, em Gramado, nós apresentamos o projeto (que na época chamava-se Roteiros Encontrados no Computador). E tinha dois nomes já, o Breda e a Camila. Eu nem tinha escalado ainda quem que ia fazer o quê, porque eu tinha dois papéis femininos e dois masculinos. Com o passar do tempo, a evolução da captação de recursos, do próprio roteiro, chega um momento em que tu tens que definir quem é Cátia e a Cassandra e quem serão os masculinos. Eu não tinha outra atriz, e aí o Breda que me falou “Tu já pensou na Maria Fernanda?”.

E eu nunca tinha pensado nela, mas me dei conta de que ela combinava totalmente com a Cátia. Ela começa o filme como uma mulher decidida, sofisticada, de grana, senhora do próprio destino, e a Maria Fernanda é a própria. É a Sophia Loren brasileira, entendeu? Mas eu não a conhecia, e ela não conhecia muito bem a Casa de Cinema, mas o Breda fez a ponte, eu mandei o roteiro para ela, e quando ela viu que o personagem leva todo o filme nas costas, ela aceitou e se jogou de cabeça. Ficou 2 meses praticamente inteiros em Porto Alegre, morando num hotel. Nós ensaiamos durante 2 semanas e depois filmamos, em 6 semanas. Naturalmente, a Camila ficou com o outro papel, de Cassandra, que é atriz (e é um super papel também).

Quanto aos homens, eu pensei no Bruno (Garcia), porque ele já tinha feito algumas coisas conosco, liguei para ele, e ele podia. Eu ainda estava em dúvida de quem ia fazer o quê, mas eu tinha escalado o contrário. O Bruno como o cara que morre e o Breda como o cara que é o cineasta de sucesso. Um mês antes, eu liguei para eles e disse “oh, mudei. Tu vais morrer e tu vais ficar vivo”… (risos). E eles toparam, acharam legal.

Com os quatro personagens principais fechados, nos outros papéis eu usei basicamente atores com quem eu já tinha trabalhado. O Nelson Diniz, o Julinho Andrade, a Janaina Cremer… Daí ficaram os três e a Julia Barth, que entrou no filme como a filha do pai que morre, e me pareceu que estava bem escalada – eu gosto da Julia. Foi assim que fechamos o elenco.

E a trilha do filme, que teve essa coisa um tanto inusitada de ter sido gravada na Igreja das Dores. Como surgiu a idéia? Era para aproveitar a acústica?

Gravar na igreja das Dores foi idéia do Thiago Flores (maestro da orquestra da ULBRA e diretor musical do filme), porque ele conhece todos os lugares em Porto Alegre para gravar. Orquestra dificilmente grava em estúdio. Normalmente, quando a orquestra vai gravar um disco, eles vão para um lugar com a acústica maior (igrejas, auditórios, teatro, etc). E como a Igreja das Dores tem uma das melhores acústicas da cidade, e não vaza muito som de fora para dentro, a gente topou.

A trilha, em si, as músicas, a concepção, foi tudo idéia minha. Eu tava escrevendo o roteiro e ouvi um concerto, um quarteto de Tchaicovsky, e pensei “isso aqui combina!”… Eu não tinha, até o verão de 2004, uma concepção muito fechada do que seria a trilha. Até tinha pensado originalmente em chamar o Flu (4Nazzo), para fazer a trilha toda. Já tinha feito o Tolerância com ele, afinal, o Flu é meu amigo há, sei lá, 300 anos. Mas depois eu me dei conta de que esse filme pedia – apesar de ser contemporâneo, urbano – uma trilha mais densa, mais pesada (no bom sentido, de não ter medo de botar a música lá e chamar a emoção). E aí eu vi que o Tchaicovsky combinava, e por associação, fui para outros compositores. Daí ele (Thiago) me apresentou não só outras peças do músico que eu não conhecia, como também outros artistas que eu nunca tinha ouvido falar e, ao mesmo tempo, outros também bem conhecidos. Então a gente começou a trocar idéias.

Até que descobrimos quais (músicas) seriam. Aí a gente passou a ver como iríamos gravar. Ele então chamou a orquestra da ULBRA e reforçou com alguns violinos e violoncelos. Tem dois solistas, um violoncelista de SP que é o Fabio Presgrave, que toca a música dos créditos iniciais e finais, que tem um solo complicado de se fazer; e tem também um bandoneonista (Carlito Magallanes), que é um uruguaio que mora em Porto Alegre, e tocou um arranjo dum concerto do Bach, com o único instrumento que não é de cordas. Quando eu vi o resultado da trilha, eu fiquei super orgulhoso. Essa gravação do concerto com certeza estará no DVD do filme…uma, duas, três músicas, pelo menos, com a orquestra tocando.

E falando agora um pouco sobre o Festival. Quais são as expectativas tuas para o Sal de Prata?

As expectativas são de que o Festival sirva como uma vitrine para o filme (que já tá servindo, eu estou dando entrevista desde que cheguei aqui). O mais importante é que o filme entra em cartaz dia 23 de setembro e, independente do Festival, ele já entraria em cartaz. Como o filme ficou pronto nesse momento aqui, que poderia usar o Festival como uma pré-estréia nacional, digamos assim, já que tem muita imprensa brasileira aqui, a gente achou que era um momento certo.

Na verdade, nesse momento, a gente começa a pesar várias coisas “Vai competir?”, “Como é que vai ser o Festival?”, “O Que o júri vai achar?”, “O que as pessoas vão achar?”… Aí eu pensei: “Pô, eu estou concorrendo nesse festival desde o super-8, em 1979, com o meu segundo filme (Sexo e Bethoven, que ganhou melhor super oito gaúcho). E a partir daí eu competi várias vezes em super-8, com o Verdes Anos (e a gente ganhou o prêmio revelação na época). Éramos todos muito jovens,então fomos revelados pelo festival. Criaram um prêmio para nos dar. (Risos..)

Na verdade, o festival é importante para o cinema gaúcho. Nos últimos anos, ele perdeu o prestigio. Nos últimos dois, três anos, onde é que estão os filmes grandes, que entraram em cartaz e fizeram sucesso? Então acho que o Sal de Prata estar aqui, ao mesmo tempo que o Festival tem muito a dar para o Sal de Prata, o filme tem muito a dar para o Festival. O ideal é que o festival fosse tão grande quanto era e que valorizasse muito o cinema brasileiro. O momento do cinema latino é legal, mas então que se faça uma mostra do cinema latino. Até achei que esse ano o festival estivesse por esse caminho (com os documentários à noite e os latinos à tarde). Agora eu li que o festival está pensando em se internacionalizar cada vez mais. Então já não entendo mais nada.

E esse ano com uma participação bastante expressiva do cinema gaúcho, como tu avalias isso?

O cinema gaúcho sempre usou o festival como vitrine. Só que isso é inédito: ter três filmes concorrendo, e três filmes completamente diferentes. É uma prova da riqueza do cinema gaúcho. A gente tem cineastas e propostas estéticas bem diferentes. E isso é ótimo porque, no cinema, a uniformidade sempre é ruim. A diversidade é boa. Para finalizar, com o festival acontecendo e ainda todas essas mostras paralelas, as pessoas discutem bastante a situação do cinema, principalmente o nacional.

Como tu enxergas a produção cinematográfica hoje?

Pensando a curto prazo, eu que vou estrear um filme agora, daqui a um mês, acho que nesse ano foi ruim. De bilheteria, de público, foi ruim para todos os cineastas. E isso para todos os cinemas, para o cinema americano, inclusive. Os americanos estão discutindo por que as bilheterias caíram esse ano. Foi ruim para elesnos outros países, e foi ruim para o brasileiro aqui também.

Mesmo assim, eu acho que o cinema brasileiro, na produção, não caiu. Pelo contrário, ele tá muito forte. Tem várias estéticas propostas por aí. Foram lançados bastantes filmes comerciais, como O Casamento de Romeu e Julieta e Dois Filhos de Francisco.

Esses filmes têm que fazer 1 milhão de espectadores ou mais. A gente espera que até o final do ano, dê uma subida, com o Sal de Prata (Risos…). Enfim, que até o final do ano a média seja maior. Agora, se a gente chegou até a 20% do mercado e agora se retraiu, isso é normal. Tem períodos de oscilação mesmo. A gente tem é que brigar para aumentar a participação de filmes nacionais no mercado, em todos os mercados. É muito importante que o cinema brasileiro aumente esse mercado nas salas, também. Mas como fazer isso? Bom, mexendo na distribuição, no tipo de incentivo que eles têm para serem lançados, para que se tenha alguma chance.

(Entrevista publicada no site Cinema.com.br, durante a cobertura especial do 33º Festival de Cinema de Gramado e 13º Gramado Cine Vídeo).

Add comment Agosto 19, 2005


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