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O engenhoso Santos Dumont de Cabangu

Idealista, sonhador, criativo e perseverante. Essas são apenas algumas características, diante de tantas outras, atribuídas ao famoso protagonista Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. Passados três séculos desde o surgimento desse tal Alonso Quijano, nasce outro personagem – de equivalente importância – que compartilha uma vida muito parecida com a dele. Seu nome: Aberto Santos Dumont. Assim como Dom Quixote, Santos Dumont encontrou na literatura uma forte influência para aquilo que veio a desempenhar no futuro. Somado a isso, pode-se dizer que ele também teve seu fiel escudeiro, viveu diversas aventuras (e desventuras) e, infelizmente, compartilhou o mesmo fim, por não ter sido compreendido.

Filho de Henrique Dumont, engenheiro, o pequeno engenhoso conviveu desde criança com as tecnologias utilizadas por seu pai na sua fazenda. Divertia-se como maquinista das locomotivas que a família mantinha ao longo dos mais de 90 km de via férrea. Além disso, foi lá que o menino franzino teve contato com a literatura de Julio Verne, um escritor que veio a ser um dos grandes responsáveis por influenciar a sua vida e obra. O resultado de toda essa simpatia por esse autor foi que, curiosamente, da mesma forma com que Dom Quixote intitulou-se cavaleiro andante a partir da leitura dos livros de cavalaria, Santos Dumont decidiu tornar-se navegador de ar. No ano de 1897, o valente aventureiro embarcou rumo a Paris, para estudar as matérias técnicas, dando início, assim, a uma vida inteira dedicada à aviação.

Concluída a formação, o brasileiro de Cabangu, Minas Gerais, voltou para seu país, sabendo que, assim como ele, existiam outras pessoas interessadas na atividade de navegação aérea. Pessoas que, como se pode comprovar ao longo de sua trajetória, exerceram um papel muito semelhante ao de Sancho Pança para com seu amo. Agiram não como um, mas sim alguns “fiéis escudeiros”. Dentre eles, é possível citar outros aviadores, técnicos, inventores, empresários, enfim, pessoas que, mesmo contemplando distintos sentimentos (por vezes criticavam, apoiavam, ficavam intrigadas, desacreditadas), desempenhavam dignamente o papel de escudeiro; isto é, estavam sempre presentes, incentivando – cada qual da sua maneira – o destemido herói.

Semelhante às incontáveis peripécias de Dom Quixote pela região da Mancha, muitas foram as aventuras (e desventuras) de Santos Dumont pelos locais em que passou. Em algumas de suas criações, pelo fato de ser ele próprio o piloto de testes, o corajoso aviador acabou indo parar nas copas das árvores, sofreu acidentes e chegou a colocar a sua vida em risco na busca de seu objetivo. E o mais fascinante de tudo é que, mesmo durante esses momentos de desespero, o bravo inventor mostrava-se genial. “Desafios eram a sua especialidade”, escreveu o doutor Henrique de Barros.

Mas nem todas suas tentativas estavam fadadas ao fracasso. Pelo contrário, algumas resultavam em êxito ao destemido herói, seja pessoal, com ele vendo suas criações obterem sucesso, seja financeiro, recebendo premiações em dinheiro. A conquista do Prêmio Deutsch evidencia outra grande característica dividida pelos dois referidos personagens: o caráter de justiça.

Com a conquista do prêmio, Santos Dumont recebeu uma considerável quantia em dinheiro e decidiu não ficar com nada. Uma parte entregou para os operários pobres de Paris e a outra destinou para seu pessoal, “os heróis anônimos do grande feito”. Percebe-se que, da mesma forma com que o cavaleiro da triste figura do início do século XVII preocupava-se em libertar os injustiçados e ajudar os oprimidos, o navegador de ar compartilhava firme esse ideal. Mais do que prestígio e dinheiro, ele pensava em doar ao mundo o produto de sua criatividade.

Todos aqueles que leram a obra O Engenhoso Dom Quixote de la Mancha reconhecem o triste fim que foi apresentado ao seu protagonista. O final de Santos Dumont, infelizmente, não foi diferente. Isso porque o Pai da Aviação descobriu que, após anos de vida dedicados a realizar seu sonho de voar, ele não foi corretamente compreendido. Os aviões, que inicialmente haviam sido criados com o intuito de propiciar práticas esportivas e/ou servir de meio de transporte, passaram a ser vulgarizados, patenteados, produzidos incontrolavelmente e, por fim, adquiriram uma terrível utilização diferente daquela pensada no início: o espaço bélico.

Nesse momento, descobriu que, sozinho, não seria capaz de vencer tamanho “moinho-de-vento”. A ele restava, ao menos, não ser cúmplice de tamanhas atrocidades. Por esse motivo, o mundo de aviadores fica órfão de pai: após completar 59 anos, morre Alberto Santos Dumont.

Assim como a expressão “quixotismo”, incorporada ao vocabulário para designar o comportamento daqueles que sobrepõem a fantasia à realidade, o idealismo ao realismo, uma vez conhecendo a história de Santos Dumont é possível empregar como sinônimo – sem perda de significado – o termo “dumontismo”. Igualmente idealista, sonhador, criativo e perseverante, ele provou a todos que podia, sim, fazer voar um aparelho “mais-pesado-que-o-ar”, depois de anos trabalhando com os “mais-leves-que-o-ar”. E mesmo que tenha existido uma dupla de irmãos, de sobrenome Wright, que insistiu em afirmar que foram eles os primeiros a conquistarem os ares, é do senso comum que somente Santos Dumont foi o legítimo criador integral da dirigibilidade dos aeromóveis em vôo. Dom Quixote também passou por uma situação de discórdia e controvérsia. Passados nove anos desde a publicação da primeira parte do livro que contava a sua história, surgiu, em Tarragona, uma suposta continuação da obra. Resta a nós, diante da objetividade e clareza dos fatos, referir-se ao suposto livro/vôo negando-lhe a autenticidade que, de fato, não ocorreu.

Dois engenhosos homens, cada qual com as suas conquistas e mundos. Viveram, sim, em épocas diferentes. Entretanto, ambos dividiram muito mais semelhanças do que se possa acreditar. Dividido entre, literalmente, os vôos da fantasia e os impedimentos da realidade, Alberto Santos Dumont tinha um ideal e por ele lutou até o fim de sua vida. Por esse motivo, nós, brasileiros e orgulhosos do nosso pai-herói, podemos pensar na sua figura como “O Engenhoso Santos Dumont de Cabangu”.

(Artigo publicado no site Portal3, em comemoração ao centenário do primeiro vôo do 14-Bis).

Add comment Outubro 23, 2006

Eleições do DCE: partidarismo a (de)serviço de todos

Definida pelo site da Embaixada Americana como sendo “um conjunto de princípios e práticas que protegem a liberdade humana”, a democracia – em teoria – representa, entre outras coisas, “a institucionalização da liberdade”. Seja ela exercida no processo eleitoral vigente em nosso país, no qual milhares de brasileiros participarão no próximo dia primeiro de outubro, seja na decisão a qual centenas de estudantes da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos estão sendo oportunizados a participarem, entre os dias 18 e 22 de setembro.

Mas o que era para anteceder a conquista de um direito livre e democrático de escolha, por parte do eleitor, parece não estar acontecendo na nossa Universidade. Isso porque, na medida em que o site da Agência Experimental de Comunicação – Agexcom, Portal3, publica a matéria intitulada Sátira é marca de partido, ele presta um desserviço social. E mais, peca por romper com um dos princípios básicos da imprensa, seja ela qual for: a imparcialidade.

É certo afirmar que a imparcialidade, literalmente falando, não existe. Isso está fora de discussão. Contudo, no momento em que o site Portal3 divulga a matéria referida, ele assina (e consolida) um compromisso – exclusivamente – com o partido que nela é retratado. Isso, também, está fora de discussão. É fato. Positivamente ou não, o veículo está sendo tendencioso. Onde está a (des)conhecida pluralidade?

Essa banalização do processo eleitoral, retratada no material de divulgação da chapa em questão, e disseminada pelo Portal3 a todos os acadêmicos da Universidade (e por que não dizer, ao mundo, uma vez disponível no ciberespaço), é lamentável, preocupante, injusta e medíocre. Como conseqüência, todos nós acabamos prejudicados: os estudantes por não estarem exercendo sua cidadania; ou seja, deixam de votar por achar que “tudo isso é uma piada”. Além deles (acadêmicos), a própria Universidade, por contratar – em vão – uma empresa terceirizada, a Cooperwoorks, a fim de garantir a transparência do processo eleitoral. Isso sem falar na falta de respeito para com as pessoas que nessa empresa trabalham: cerca de 20, que estão trabalhando desde a segunda-feira, dia 18, diariamente das 7h30 às 24h15.

Ainda com relação aos conceitos defendidos pelo site da Embaixada Americana, eles afirmam que “o desafio para uma democracia é o equilíbrio: defender a liberdade de expressão e de reunião e ao mesmo tempo impedir o discurso que incita à violência, à intimidação ou à subversão”. É evidente que os integrantes da chapa em questão, nesse sentido, estão todos desequilibrados.

Vivemos um momento crítico na política atual do nosso país. Descrença, vergonha, entre outros sentimentos atormenta a vida de cada brasileiro dessa nação. Diante dessa realidade, diante de uma agremiação que deveria se propor a radicalizar ações e potencializar práticas de construção de uma universidade mais humana e voltada realmente para o social, resta apenas assumir uma postura ética e, no mínimo, retratar-se aos seus eleitores assumindo sua total irresponsabilidade e retirando sua candidatura desse processo.

Quanto a uma resposta, referente à postura cabível de ser tomada pela Universidade, diante dos fatos, confesso não ter uma resposta. Entretanto, é sabido por todos que o ensino acadêmico é um passo importante no sentido de contribuir para a formação profissional/cidadã de cada indivíduo. Nesse sentido, a Unisinos, como universidade jesuíta, “é herdeira de quase cinco séculos de tradição. Seu projeto institucional está alicerçado nos princípios da pedagogia inaciana, em que a pesquisa e o ensino visam beneficiar o ser humano, em todas as suas dimensões, e a promover a justiça”. Por esses e outros motivos, tenho a certeza de que as devidas providências, certamente – ao menos idealizo eu -, serão tomadas.

(Artigo produzido – em forma de protesto – durante o processo eleitoral do DCE da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos).

Add comment Setembro 21, 2006

Carta branca para a Imprensa

“Em maio de 1991, jornalistas africanos se reuniram na capital da Namíbia, Windhoek, para um seminário regional de promoção da mídia independente e pluralista (em alusão ao encontro, 3 de maio passou a ser o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa). A Declaração de Windhoek tornou-se o primeiro de uma série de compromissos, região por região, de apoio à liberdade das pessoas em toda parte de proclamarem sua opinião e terem acesso a uma variedade de fontes independentes de informação.”

(Pronunciamento de Sérgio Vieira de Mello, então à frente do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos/2002).

crianca_tv.jpg Foto: www.lifenetbrasil.com.br

Passados 15 anos desde o início dessa luta pela liberdade de expressão, os profissionais da imprensa – de um modo geral – parecem não saber usufruir de maneira responsável a chamada “carta branca” que lhes foi atribuída. Ao mesmo tempo em que se vislumbra uma conquista, no sentido de ser resguardado o direito à liberdade, temos a construção de toda uma sociedade alicerçada em interesses a bel-prazer (desses profissionais midiáticos) por vezes deseducador, irresponsável e sujo.

Em entrevista ao site Portal3, o professor Jacques Wainberg disse defender a liberdade de imprensa como sendo “um dos pilares da democracia”. De fato, com a queda do muro de Berlim e o fim da bipolaridade mundial, diversos países que até então conheciam apenas a repressão como forma de estrutura organizacional existente, passaram a exercer de forma efetiva as suas democracias. Isso sem falar nos anos de chumbo durante a ditadura e tantos outros períodos históricos em que a censura se fez presente, torturando e até mesmo assassinando centenas de jornalistas por toda parte do mundo.

Entretanto, junto dessa liberdade, a imprensa tem o dever e, principalmente, a obrigação de prestar um serviço público – por se tratar de concessões públicas – sob a ótica dos direitos humanos. Eis aí um grande problema, pois isso, de fato, nunca aconteceu. Muito pelo contrário. O exemplo que temos vivido ao longo dos últimos anos é o de empresários que, mesmo sem qualquer formação na área social, e por terem dinheiro, compram concessões e tratam suas mídias como putas a serviço de seus interesses. Para evidenciar isso não precisa muito: basta ligar a televisão em um domingo qualquer e “contemplar” as mencionadas atrocidades, tais como “bundas atoladinhas” prestando um desserviço para nossa nação.

O que, em tese, mais se aproxima e deveria agir como um impedimento para a representação de absurdos como esses é a própria auto-regulamentação dos veículos midiáticos. Mas isso torna-se uma piada uma vez que, fazendo isso, transferimos para os cães a responsabilidade de cuidar das raposas. Não funciona. Isso é uma prática que continuará acontecendo até o dia em que for consolidado qualquer exemplo eficaz de órgão/instituição que haja como mediador nesse processo comunicacional.

A partir de tais evidências, percebemos que essa “carta branca” fornecida à imprensa não deve ser tão inviolável assim. Longe disso. A imprensa tem hoje resguardado o seu direito à liberdade, somado a isso ainda estão todos os infindáveis surgimentos de avanços tecnológicos que possibilitaram ainda mais uma democratização da informação, e tudo isso para nada. Existe forma – ilimitada – mas não existe conteúdo e, quando existe, é indigno, de baixo calão.

A “carta branca” merece, sim, ser rasurada. Lida e relida. E a partir de um utópico conselho competente, formado por todos os envolvidos direta e/ou indiretamente nessa transferência de informação, só assim, a comunicação social estará, plenamente, exercendo o seu papel, com a devida atenção e prioridade com esse “social” que compõe seu nome.

(Artigo publicado no site Portal3, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos).

Add comment Maio 3, 2006


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